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O empresário bolsonarista Otávio Fakhoury, investigado em inquéritos no STF, falou à Pública antes de seu depoimento hoje na CPI da Pandemia.

Fonte: Agência Pública

Suspeito de ser um dos principais financiadores da máquina de ódio e notícias falsas que alimenta a militância bolsonarista, o presidente do diretório estadual do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) em São Paulo, Otávio Fakhoury, repassou R$ 310 mil para o Instituto Força Brasil, conforme informações que chegaram à CPI da Pandemia no Senado. A entidade é alvo de investigação por ter participado das negociações paralelas de vacinas junto ao Ministério da Saúde e por ter disseminado notícias falsas sobre vacinação, uso de máscaras e “tratamento precoce” contra a Covid-19.

Dados obtidos pela Agência Pública junto à CPI mostram que ele também desembolsou R$ 50 mil para o Centro de Estudos da Liberdade, ou Farol da Liberdade, idealizado pelos irmãos Abraham e Arthur Weintraub – ex-ministro da Educação e ex-assessor da Presidência, respectivamente –, e doou R$ 65 mil para o Instituto Conservador Liberal, fundado pelo deputado federal e filho 03 do presidente da República, Eduardo Bolsonaro (PSC-SP).

Fiel aliado de Jair Bolsonaro, o empresário se tornou alvo de dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF), no ano passado, que atingiram em cheio a tropa de choque do mandatário: o das fake news e o dos atos antidemocráticos – o último arquivado no mês de julho, após pedido do Procurador-Geral da República Augusto Aras. O ministro Alexandre de Moraes, no entanto, abriu nova linha de apuração para verificar a existência de uma organização criminosa digital voltada a atacar as instituições, que incluiria a participação de Fakhoury.

Ele será ouvido hoje (29) na CPI da Pandemia, por requerimento do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Segundo sua assessoria, o empresário recebeu a convocação com “naturalidade e tranquilidade”.

O Instituto Força Brasil, do qual Fakhoury é vice-presidente, foi criado em junho do ano passado e defende, entre outras pautas, o homeschooling, a liberação das armas e o voto impresso. Seu presidente, o tenente-coronel Hélcio Bruno, foi apontado nas investigações da CPI como intermediário da reunião entre um grupo que oferecia imunizantes inexistentes da AstraZeneca e o número dois do Ministério da Saúde, o secretário executivo Elcio Franco. Durante seu depoimento na CPI, em 10 de agosto, o militar não revelou de onde vem o dinheiro que mantém a organização. Já Fakhoury disse à Pública que foi procurado por um grupo de empresários que queria vender respiradores ao governo federal, mas que “cortou todo mundo”. “Contato eu tenho, mas eu não sou traficante de influência”, afirmou.

Embora ocupe o cargo de vice-presidente do Força Brasil, o empresário diz que exerce apenas função “institucional” na organização. “Como eu sou uma pessoa que tem muita proximidade com todos os movimentos conservadores e liberais conservadores, o coronel Hélcio, que eu conheci e gosto muito, pediu para eu ser vice-presidente, para ser, como se fosse assim, a cara do instituto perante os civis”, destaca. Ele diz que seu papel é de “relações-públicas”, “garoto-propaganda” e que se aproximou dos militares durante movimentos de ativistas. “Alguns deles são ligados a grupos conservadores”, completa.

O Força Brasil também tem parceria com duas páginas que espalharam conteúdos antivacina e a favor do chamado “kit Covid” – coquetel de medicamentos sem eficácia comprovada contra o coronavírus. Os perfis Awake Giants Brasil e A Verdade dos Fatos – iniciativas dos advogados Paulo Farias e Flávia Ferronato, coordenadores do Movimento Advogados do Brasil – são hospedados pelo site da organização, que também oferece a eles assessoria jurídica, de acordo com o próprio Fakhoury.

Irmãos Weintraub

Fakhoury lidera uma geração da elite paulistana que atuou pela ascensão da direita conservadora que elegeu Jair Bolsonaro, com forte influência do pensamento de Olavo de Carvalho, e se mobiliza para difundir esse ideário. A admiração pelo guru conservador é tamanha que ele chegou a visitá-lo na Virgínia, nos Estados Unidos, em 2015, ao lado da Bia Kicis, hoje deputada federal pelo PSL do Distrito Federal, também investigada por fake news.

Seu mais novo projeto para disseminar o conservadorismo é o Farol da Liberdade, fundado em junho deste ano, no qual investiu R$ 50 mil. Fakhoury negou ter participação ativa na organização, apesar de na Receita Federal constar como seu presidente. Segundo ele, o Farol da Liberdade pertence oficialmente a Abraham e Arthur Weintraub, que o teriam convidado para assumi-la enquanto estão nos Estados Unidos.

“Eles pediram: ‘Fica na presidência, a gente confia em você, quando a gente voltar, a gente pega'”, diz. Quem está tocando “o dia a dia da entidade” é o advogado Victor Sarfatis Metta, amigo pessoal de Fakhoury. “Tudo ele me presta contas, eu assino, porque confio nele.”

Os dois se conheceram em 2018, durante o período eleitoral. Metta disse à Pública que na época era tesoureiro do PSL, então partido de Jair Bolsonaro, e Fakhoury o procurou, disposto a ajudar. “Eu lembro que ele tinha oferecido para quem quisesse algumas ajudas, que ele estava no projeto, estava junto, estava se movimentando. Ativista é isso, né? Ele é ativista”, comenta o advogado.

Durante o pleito daquele ano, Fakhoury fez doações declaradas às campanhas de Luiz Philippe de Orléans e Bragança e Bia Kicis, candidatos à Câmara dos Deputados pelo PSL, e a Rogério Chequer, que disputava o cargo de governador de São Paulo pelo Partido Novo. Na campanha eleitoral de 2020, o empresário fez também doações declaradas a candidatos bolsonaristas em diversos estados, que somaram R$ 226 mil. Dessa quantia, R$ 165 mil foram direcionados à campanha de Celso Russomanno (Republicanos) para a prefeitura de São Paulo.

Investigações da Polícia Federal no âmbito do inquérito dos atos antidemocráticos indicam que Fakhoury teria pago adesivos e panfletos para a campanha de Jair Bolsonaro em 2018 sem declarar as operações ao TSE. Questionado, ele afirmou que já deu suas explicações sobre o tema e que “não há nenhuma ilicitude”.

Metta ficou na tesouraria do PSL até junho de 2019, quando se mudou para Brasília para integrar a equipe do Ministério da Educação em maio. Foi Fakhoury quem o substituiu no partido, a convite de Eduardo Bolsonaro, à época presidente do PSL em São Paulo.

O Farol da Liberdade foi uma ideia que surgiu quando Weintraub ainda comandava a pasta, de acordo com Metta, então assessor especial do ministro. O advogado explica que a organização é conservadora, “mas não é exclusivista”. “A gente consegue agregar pessoas o máximo possível, e não ficar separando quem tá com a gente, quem não tá com a gente. Quem tem pensamentos comuns tá com a gente”, comenta.

A ONG trabalha em três frentes, de acordo com Metta: no patrocínio de estudos – “o que os americanos chamam de think tank – para desenvolver ideias, livros, pensamentos; na comunicação das redes sociais – para agregar pessoas para os ideais defendidos”; e no ativismo judicial, onde o advogado mais atua.

Metta revelou que há uma série de ações na Justiça “que visam temas que são caros ao projeto”, como por exemplo a que solicita aos fabricantes de máscaras que informem a sua eficácia para vírus, em geral. “Porque todas as máscaras, se você vê nas caixas delas, tem a eficácia bacteriana. É muito raro aparecer a eficácia virológica, então a gente gostaria disso. Por quê? Porque é uma questão do direito do consumidor, direito do consumidor é a liberdade do consumidor saber o que ele está comprando”, justifica.

O instituto, segundo Metta, é autor de ações contra o toque de recolher em cidades paulistas e na capital. Tema defendido por Jair Bolsonaro, que culpa governos estaduais e prefeituras de terem prejudicado a economia ao longo da pandemia por decretarem lockdown – atendendo às recomendações dos órgãos mundiais de saúde.

Arthur Weintraub foi apontado na CPI da Covid-19 como idealizador do gabinete paralelo, um grupo fora da estrutura do Ministério da Saúde que aconselhava o presidente Bolsonaro na definição de ações de combate ao coronavírus. Em vídeo divulgado pelo ex-assessor da Presidência em junho, ele negou participar do gabinete paralelo, mas admitiu que dava conselhos sobre o assunto. Weintraub falou ainda, em entrevista ao programa Opinião no Ar, da RedeTV, que vem sendo alvo de uma perseguição.

Planos para fugir da “censura”

Assim como os irmãos Weintraub, Otávio Fakoury repete a narrativa de apoiadores de Jair Bolsonaro de que os conservadores estariam sendo perseguidos e censurados no Brasil. Para ele, os inquéritos dos quais é alvo seriam parte disso. “Isso foi feito para você cercear um lado só porque o outro lado marcha pedindo ‘libera todas as drogas’ e não acontece nada. Então tem cunho persecutório sim”, defende Fakhoury. Mais do que isso, para ele, as investigações são ilegais. “Não tem tipo penal de fake news”, argumenta.

O empresário, que já teve uma conta no Twitter bloqueada por decisão do ministro Alexandre de Moraes no inquérito das fake news, revelou à Pública uma alternativa para evitar a “censura”: pretende adquirir uma rádio FM com programação conservadora. “A vantagem do rádio é que você está debaixo de uma outra legislação e não é fácil vir um ministro do Supremo canetar e te tirar, porque o rádio tem uma regra, que é lei”, justifica.

Suas articulações com o governo federal para comprar a rádio foram reveladas em diálogos entre ele, Eduardo Bolsonaro e o ex-chefe da Secretaria de Comunicação do Governo (Secom) Fabio Wajngarten, obtidos pela Polícia Federal no inquérito dos atos antidemocráticos – que teve seu sigilo quebrado antes de ser arquivado. “É urgente que a gente tenha um canal que não possa ser censurado”, escreveu em mensagem de WhatsApp encaminhada a Wajngarten em 22 de maio de 2020.

Nas mensagens, transcritas no inquérito dos atos antidemocráticos, Faka, como Fakhoury, é conhecido pelos amigos, também indica possíveis financiadores da iniciativa. Entre eles, o dono da Havan, Luciano Hang, Flávio Rocha, das lojas Riachuelo, e Edgard Corona, proprietário da rede de academias SmartFit, além de ventilar a hipótese de conseguir algum empréstimo via Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES).

O chamado inquérito das fake news investiga os acusados pelos crimes de calúnia, injúria e difamação (arts.138, 139 e 140 do Código Penal). Já no inquérito dos atos antidemocráticos, arquivado por Alexandre Moraes, Fakhoury foi investigado por “supostamente financiar pessoas, partidos ou movimentos que teriam praticado os atos tipificados como crime na Lei 7.170/83″, contra a segurança nacional e a ordem política e social. “Não é crime você colaborar com alguém. Meu dinheiro é legal. Eu faço o que eu quiser com ele”, defende-se.

Coworking de mídia

O mais novo investimento do empresário é um escritório coworking de mídia, chamado “Loopwork”. O espaço, com mais de 500 metros quadrados na avenida Faria Lima, em São Paulo, conta com sala de redação, mesas de edição de vídeo, dois estúdios e editores de plantão e é voltado para jornalistas, influenciadores e youtubers independentes, “de qualquer espectro ideológico”, destaca seu dono. “É um projeto comercial, não tem seletividade nenhuma”, reforça.

O empreendimento, recém-inaugurado, já tem como cliente o 4×4, programa de YouTube no qual os comentaristas Luís Ernesto Lacombe, Guilherme Fiuza e Rodrigo Constantino, além da ex-jogadora de vôlei e influenciadora Ana Paula Henkel, analisam sob a perspectiva conservadora os acontecimentos da semana. Os apresentadores do programa se envolveram diversas vezes em polêmicas por divulgar informações falsas, inclusive sobre as vacinas contra a Covid-19.

Sócio da Brasil Media House, responsável por produzir o 4×4, João Paulo Gomes Vieira tem recebido transferências mensais de Fakhoury desde março de 2021, que somadas totalizam R$ 140 mil, conforme informações que chegaram à CPI.

“Family office”

Otávio Fakhoury falou sobre o seu coworking, dentre outros assuntos, durante entrevista concedida à reportagem na manhã de 10 de setembro. Ele recebeu a Pública em seu escritório que também fica na avenida Faria Lima. É um espaço sóbrio, que tem como principal objeto de decoração um retrato em desenho do patriarca Oscar Fakhoury, pendurado no hall de entrada. Na sala onde ocorreu a entrevista, há apenas uma grande mesa de reuniões e uma televisão.

“Aqui é nosso family office“, define, explicando que as salas comerciais são divididas entre ele, a mãe, os primos e tios. Depois de uma carreira no mercado financeiro – que incluiu um período como diretor de câmbio do Lehman Brothers no Brasil até a quebra do banco na crise de 2008 –, Fakhoury passou a atuar exclusivamente nos negócios da família.

Apesar de o encontro ter sido realizado durante a pandemia de coronavírus, a única pessoa que usava máscara de proteção – fora a equipe de reportagem – era a funcionária que nos trouxe água e café durante as duas horas de conversa. “Podem tirar as máscaras se quiserem. Eu não preciso porque já estou imunizado”, diz o entrevistado ao entrar na sala, contrariando as recomendações de especialistas para que pessoas vacinadas continuem utilizando máscaras, sobretudo em locais fechados.

Era o fim de uma das semanas mais quentes no cenário político nos últimos tempos. Na terça-feira, feriado de 7 de setembro, Fakhoury esteve na avenida Paulista ao lado de Jair Bolsonaro durante os atos antidemocráticos a seu favor.

O empresário não esconde que contribui há anos com os atos de rua, mas negou que tenha colocado dinheiro nessa manifestação. De acordo com ele, para não dizerem que “o PTB está fazendo financiamento”. “Esse ano eu declarei inclusive que não ia financiar ninguém”, ressalta. “Mas sempre que eu faço ajuda, por exemplo, é para manifestações iguais a essas de terça agora, pacíficas.”

No sábado anterior, 5 de setembro, ele havia participado do encontro de conservadores CPAC Brasil em Brasília. O evento é uma cópia do norte-americano de mesmo nome e foi promovido pelo Instituto Conservador Liberal, fundado em 2020 por Eduardo Bolsonaro “com o propósito de debater e organizar ideias, fazer eventos, lançar livros, oferecer cursos nacionais e internacionais e ser um local de comunicação entre pessoas que pensam de maneira similar”. Em julho, o deputado havia se reunido com empresários em busca de financiamento para a organização, de acordo com matéria da Folha de S.Paulo. Conseguiu apoio de Fakhoury, que transferiu R$ 65 mil à entidade no mesmo mês, conforme apurou a Pública com a CPI.

Com Bolsonaro desde 2015

Otávio Fakhoury conheceu os Bolsonaro em 2015, por intermédio de um militar, o coronel do Exército José Gobbo Ferreira, autor do livro Dez anos de PT e a desconstrução do Brasil, lançado em 2013. À época, Fakhoury era um dos líderes do movimento Acorda Brasil, uma dissidência do Vem pra Rua, conhecido por organizar manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) e a favor da Operação Lava Jato, ativa nas redes sociais. Discordâncias internas o levaram a romper com o grupo liderado por Rogério Chequer, que conhecia dos tempos de Citibank, e a fundar o Acorda Brasil com o deputado Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PSL-SP), que ele chama de “príncipe”.

O coronel levou o jovem empresário de direita ao gabinete do então deputado federal Jair Bolsonaro, onde ficaram conversando até as 22 horas, conforme lembra o empresário. De lá, foram com Jair e Eduardo – que também acompanhava o grupo – até o restaurante do hotel Saint Paul, na Asa Sul, região de Brasília onde Fakhoury possui um apartamento. O encontro durou até 1h30 da manhã.

Depois disso, conta, ele encontrou Jair Bolsonaro mais algumas vezes no Congresso Nacional e em eventos da militância conservadora. Em 2017, Fakhoury o acompanhou em viagem a Nova York, onde atuou como seu tradutor simultâneo, em palestra que contou com a presença de Olavo de Carvalho e do também escritor conservador Jeffrey Nyquist.

Apesar disso, o empresário diz não ter amizade pessoal com o presidente. “O único que eu tenho conversa privada, por exemplo em WhatsApp, que eu converso privadamente, é o Eduardo. Com Flávio não tenho, com Carlos não tenho, e com o presidente Bolsonaro também não tenho. Que tristeza que foi quando descobriram isso, né? Porque eu supostamente recebia ordens do Carlos para quem que eu devia dar o dinheiro, que a pessoa ia lá fazer difamação na rede social porque eu dei dinheiro”, diz, referindo-se às investigações da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News no Congresso Nacional, instalada em setembro de 2019.

Otávio Fakhoury foi acusado de financiar páginas e perfis associados à disseminação de informações falsas durante a campanha de 2018 e à orquestração de ataques em massa contra opositores políticos. A CPMI suspendeu os trabalhos no início da pandemia, mas seu retorno está previsto para depois do fim da CPI da Covid no Senado.

A denúncia contra ele veio em uma reportagem da revista Crusoé assinada pelo jornalista Felipe Moura Brasil, que o apontou como parte da chamada “militância virtual bolsonarista”, se comunicando com membros do governo e influenciadores e blogueiros alinhados em grupos no WhatsApp.

O empresário processou o jornalista por danos morais e entrou com ação por direito de resposta, mas foi derrotado em ambos os casos. Fakhoury segue alegando que a matéria é mentirosa e tenta virar o jogo dizendo que foi isso que o fez se aproximar da militância bolsonarista. “Eu sempre fiquei silencioso, até um dia que um jornalista botou uma matéria de gabinete do ódio. Aí, Felipe Moura Brasil, agora você tem uma plateia inteira do ódio”, disse em sua palestra ao CPAC Brasil, em setembro.

No entanto, a ligação entre Fakhoury e páginas e perfis de apoio ao presidente vem de muito antes, principalmente através do site Crítica Nacional, do blogueiro Paulo Eneas. Em março de 2019, reportagem do jornal O Estado de S. Paulo havia apontado o portal como parte de uma “rede bolsonarista ‘jacobina'”,  apelidada também de “gabinete do ódio” do governo, ao lado de outras páginas como Terça Livre, Conexão Política e Renova Mídia.

Assim como boa parte dos seus contatos, Fakhoury diz ter conhecido Eneas em manifestações pelo impeachment de Dilma. “Eu comecei a ir para rua nesses movimentos e às vezes eu via lá um senhorzinho com uma câmera fazendo videozinho”, diz referindo-se ao dono do Crítica Nacional, que na época era apenas um blog.

Ele ajudou financeiramente o projeto a se tornar um site, comprando equipamentos e alugando um apartamento para Paulo Eneas em São Paulo. Em entrevista ao jornal O Globo, Fakhoury disse ter investido em torno de R$ 30 a R$ 40 mil por ano no Crítica Nacional desde 2016.

Hoje, o empresário garante não colocar mais dinheiro no site, atuando apenas como parte do “conselho editorial”, dando opiniões, em um grupo no WhatsApp, sobre textos a serem publicados . “Eu ajudei, sim, dei dinheiro no começo, porque eu queria. Eu gostava do trabalho dele. Só que no momento ele começou a ganhar dinheiro lá, não precisa mais de dinheiro”, afirma.

Na mira do STF

Em meados de 2020, os inquéritos dos atos antidemocráticos e das fake news apontaram ligações de Fakhoury com outra iniciativa midiática bolsonarista, a web-rádio ShockWave. As mensagens, que constam de um de seus celulares apreendidos pela Polícia Federal e estão disponíveis entre os documentos do inquérito dos atos antidemocráticos, mostram também que ele tinha contato direto com membros do governo e com outros influenciadores da extrema direita, como queria provar a CPMI.

Os policiais encontraram trocas de mensagens entre o empresário, políticos e influenciadores sobre a intenção de migrar a ShockWave para a rádio convencional. “O nosso projeto é colocar a ShockWave em FM”, disse ao deputado Eduardo Bolsonaro, a quem procurou em busca de contatos para a compra de uma rádio.

Fakhoury nega ter relação com a ShockWave, afirmando que se tratava de um acordo de mútuo apoio entre a web-rádio e o portal Critica Nacional, de Paulo Eneas. “ShockWave é um projeto de terceiros que eu nunca me envolvi”, afirma. A iniciativa está registrada no nome de Juliana Vaz Caprara, conhecida como “Ju Ginger”, e tem entre seus colaboradores o advogado Evandro Pontes, que Otávio admite conhecer.

Ele argumenta ainda que os portais aos quais é associado não praticam crimes. “Sabe quantos processos por calúnia, injúria e difamação o Crítica Nacional tem? Zero”, diz. No entanto, tanto o Crítica Nacional quanto a ShockWave já perderam na Justiça processos de danos morais contra a jornalista Madeleine Lacsko, colunista do jornal Gazeta do Povo – o que o empresário descreve como “briga pessoal”.

O blogueiro Paulo Eneas, do Crítica Nacional, foi condenado em novembro de 2020 pela Justiça de São Paulo por “alastrar boato difamatório contra a autora, que a associava a uma ‘conspiração global satanista envolvendo o STF, a artista Marina Abramovic e a suposta condescendência de tais pessoas com o abuso sexual infantil”’. A narrativa faz parte de uma falsa teoria de que haveria um grupo de pessoas com interesse em legalizar a pedofilia como uma nova orientação sexual aceita pela sociedade. Um dos principais expoentes dessa teoria é Olavo de Carvalho.

Já Juliana, da ShockWave, foi condenada em maio de 2021 por dar sequência a essas difamações contra Madeleine. “As afirmações feitas pela demandada em rede social (tais e quais coligidas aos autos), englobando a autora numa narrativa fantasiosa de ser ela ‘satanista’ e ‘defensora da prática de pedofilia ou de pedófilos’, evidentemente, são passíveis de reparação por danos morais’”, determinou o juiz Eduardo de Lima Galduroz, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP). “O que eu aleguei é que eles me causam dano laboral. Por que não é uma pessoa que falou uma coisa uma vez. Não. É um grupo, depois eu fui ver, que é de pessoas que se conheciam, que se relacionavam”, conta a jornalista.

Madeleine sofre ataques virtuais desde 2015, vindo principalmente de páginas e perfis bolsonaristas. Apesar de ter ganhado os processos, já transitados em julgado, ela ainda não recebeu o pagamento das indenizações por danos morais dos condenados. “Pra mim pouco importa o que eles estão falando de mim, mas eles transformaram isso num jogo, com anuência das plataformas, e quem tá pagando prejuízo sou eu, sozinha”, diz.

Os inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF) identificaram uma série de grupos de WhatsApp relacionados à militância bolsonarista nos celulares de Fakhoury, entre eles um ligado à web-rádio ShockWave, o “CN Shockwave Radio” e outros como o “Mkt Bolsonaro”, e “Influencers conservadores”, que tinha como integrante o blogueiro Allan dos Santos, do portal Terça Livre – também investigado nos inquéritos do STF.

Fakhoury, porém, nega ter relação próxima com grande parte dos integrantes desses grupos. “Não adianta falar que eu tô ligado com cara que eu nunca troquei uma mensagem, só que eu tava no grupo em que eu não falo nada, entendeu?”, afirma à reportagem.

Para reforçar seu argumento, mostrou em seu celular um grupo intitulado “Povo Valente”. “Eu não leio nunca, tem 1.051 mensagens [não lidas]. Ó quantas pessoas tem no grupo”, exemplifica, apontando para o aparelho. Dos 167 membros, cerca de 50 estavam salvos como contatos no seu celular. Destes, grande parte era de políticos e influenciadores conhecidos no meio bolsonarista. Estão no grupo o deputado federal Paulo Eduardo Martins (PSC-PR); o deputado estadual Gil Diniz (sem partido-SP); o youtuber Paulo Souza, do canal Hipócritas; e o blogueiro Italo Lorenzon, do portal Terça Livre. Ainda assim, o empresário nega que seja um grupo ligado ao governo ou a políticos. “Gente comum, gente que não é da política. Tem deputado que tá aqui no grupo, mas nunca fala nada”, justifica.

Fonte: https://apublica.org/2021/09/acusado-de-financiar-fake-news-fakhoury-deu-dinheiro-a-ong-dos-weintraub-e-forca-brasil/

 

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